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Introdução desta matéria
O Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco marcou para a próxima terça-feira, 27 de outubro, o julgamento de uma Auditoria Especial relacionada à infraestrutura e alimentação escolar do município de Buíque, no agreste.
A auditoria tem como base os dados de um levantamento do próprio TCE, feito entre os meses de maio e outubro do ano passado, em 2.925 escolas de todos os 184 municípios de Pernambuco (ou metade de todas as escolas da rede pública pernambucana): a maioria é composta de escolas das rede municipais de ensino. Cerca de 700 mil alunos estudam nessas escolas, e aproximadamente 900 mil refeições são servidas diariamente nelas. A intenção foi obter um diagnóstico mais preciso da gestão da infraestrutura e da alimentação escolar nesses municípios, classificando-os em quatro faixas de pontuação tanto no quesito Infraestrutura quanto no de Alimentação Escolar:
- Faixa A (melhor classificação): nota entre 90 e 100
- Faixa B: nota entre 70 e 90
- Faixa C: nota entre 50 e 70
- Faixa D (pior classificação): nota entre 0 e 50
No quesito Infraestrutura, nenhum município pernambucano ficou na Faixa A de classificação do levantamento do TCE.
35 municípios (19% do total) ficaram na Faixa B de classificação, 91 municípios (49%) ficaram na Faixa C de classificação e 58 municípios (32%) ficaram na Faixa D de classificação. Buíque aparece entre os listados com pior infraestrutura da rede de ensino de todo o estado.
Já no quesito Alimentação Escolar, apenas os municípios de Casinhas e Orobó, no agreste, ficaram na Faixa A de classificação com melhor gestão, segundo o levantamento.
8 municípios (4% do total) ficaram na Faixa B de classificação, 77 municípios (42%) ficaram na Faixa C de classificação e 97 municípios (53%) ficaram na Faixa D de classificação. Novamente, Buíque aparece entre os listados com pior gestão da alimentação escolar da rede de ensino de todo o estado.
Lembrando que esses dados, por terem sido coletados no ano passado, já pegam parte da gestão de Túlio Monteiro à frente do município. Nesta reportagem especial, até pelo nosso público ser majoritariamente de Buíque, focaremos nos dados coletados sobre Buíque. Você pode conferir na íntegra os dados de todos os municípios de Pernambuco deste levantamento acessando os seguintes painéis de resultados listados abaixo:
- Painel de Resultados: Auditoria Alimentação 2025
- Painel de Resultados: Auditoria Infraestrutura 2025
DADOS DE BUÍQUE
Conforme já adiantado em nossa introdução ao assunto, Buíque ficou na Faixa D de classificação nos quesitos de Infraestrutura e Alimentação Escolar para o TCE. Isso significa que o município do agreste lista entre aqueles com as piores condições para seus estudantes nestes dois quesitos em todo o estado de Pernambuco.
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Buíque é de 0,53: o oitavo pior do estado de Pernambuco. Esse dado foi coletado pelo TCE junto ao IBGE.
A rede municipal de ensino de Buíque conta com 32 escolas, das quais 16 foram visitadas e vistoriadas pelo TCE neste levantamento.
Infraestrutura
Começando pelo quesito Infraestrutura, os achados relacionados às licenças de funcionamento foram estes:
- apenas uma escola tinha licença de funcionamento válida pela Vigilância Sanitária, enquanto as outras quinze simplesmente não tinham licença nenhuma;
- nenhuma escola vistoriada tinha o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros;
- quatro escolas não apresentavam nenhum certificado de dedetização, enquanto dez tinham o certificado emitido há até seis meses e duas tinham certificado de dedetização de mais de seis meses.
Sobre o abastecimento de água, todas as escolas vistoriadas contavam com água vinda da rede pública (Compesa) ou por meio de caixas d'água ou cisternas. Onze têm caixas d'água, mas dez não apresentaram nenhum registro de limpeza destas caixas ou a limpeza foi feita há mais de seis meses.
Sete escolas dispõem de cisternas, mas nenhuma apresentou qualquer comprovante de limpeza nos últimos seis meses.
Na Escola Municipal Nossa Senhora das Graças, foi constatada a presença de cloro na água. Essa presença foi considerada uma inconformidade pela auditoria do TCE.
Uma escola fornecia água para consumo humano sem filtro, o que foi apontado como um risco à saúde dos alunos. Nenhuma das 16 escolas de Buíque apresentaram qualquer certificado de potabilidade da água.
Todas as escolas vistoriadas em Buíque contam com esgotamento sanitário, seja por conexão com a rede da Compesa ou por meio de fossas.
Dez das 16 escolas vistoriadas de Buíque ainda destinam seu lixo para a queima, um fato considerado irregular para os auditores.
Dez das 16 escolas vistoriadas de Buíque não contam com um letreiro legível, que identifique o prédio como uma instituição escolar, o que pode comprometer a segurança dos alunos.
Também foram apontadas irregularidades quanto a rampas de acesso, banheiros adaptados para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, quadras de esportes, bibliotecas e salas de leitura. Mesmo em menor quantidade, tais irregularidades carecem de correção por parte da gestão municipal.
Já quando vamos às salas de aula destas escolas, o levantamento apontou o seguinte resultado em Buíque (imagem abaixo):
Essas irregularidades, segundo a auditoria do TCE-PE, podem provocar desconforto ou até mesmo um risco à integridade dos alunos da rede municipal, se a gestão não intervir para corrigi-las logo.
Os banheiros dessas escolas também trazem outro fator preocupante. Das 16 escolas avaliadas em Buíque, 15 tinham banheiros exclusivos para alunos. E dessas 15, dez não tinham fornecimento regular de água. Além disso:
- três tinham ao menos um assento em condição inadequada de conservação e uso;
- sete tinham ao menos uma descarga em condição inadequada de conservação e uso;
- seis tinham ao menos uma pia (dois com cuba e quatro com torneira) em condição inadequada de conservação e uso;
- três tinham ao menos uma porta em condição inadequada de conservação e uso;
- oito tinham ao menos uma fechadura em condição inadequada de conservação e uso;
- e nenhuma tinha chuveiro.
Também foi constatado que doze dessas escolas (ou 80% do total vistoriado) tinham problemas na infraestrutura de seus banheiros.
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| Imagem: Google com dados do Levantamento do TCE-PE |
Alimentação Escolar
Já quanto à gestão da alimentação escolar nas instituições de ensino vistoriadas em Buíque, o município também ficou na Faixa D: a pior da classificação estadual. Os principais achados e irregularidades neste quesito foram os seguintes:
- uma das 16 escolas não contava com cardápio visível aos alunos;
- duas das 16 escolas não contavam com cardápio montado por nutricionista responsável técnico;
- apenas três das 16 escolas tinham controle de estoque dos alimentos servidos aos alunos;
- seis das 16 escolas apresentavam problemas no fornecimento de água em suas cozinhas e refeitórios;
- quatro das 16 escolas não têm balanças para pesagem dos alimentos, duas não têm fogão ou liquidificador, quatro não têm freezer e sete não têm forno;
- quatro cozinhas estavam com piso sujo e/ou com rachaduras;
- sete cozinhas tinham paredes com rachaduras, mofo e/ou infiltrações;
- quatro dessas cozinhas apresentavam rachaduras mofo e/ou infiltrações também no teto/cobertura;
- sete dessas cozinhas também não tinham tela em suas janelas;
- e somente quatro das 16 escolas vistoriadas em Buíque contavam com um refeitório.
No aspecto de boas práticas de saúde e higiene:
- em duas escolas, foram constatadas que merendeiras não utilizavam toucas;
- em quatro escolas, foram constatadas a presença ou evidências da presença de animais causadores de doenças (como moscas, baratas, formigas e cupins);
- seis escolas tinham armários ou prateleiras em que eram guardados alimentos com ferrugem;
- sete escolas tinham lixeiras sem tampa ou pedal.
Já na análise do armazenamento dos gêneros alimentícios, os achados foram os que constam na imagem abaixo:
Em uma das 16 escolas, foram encontrados alimentos armazenados já vencidos. Em doze das 16 escolas, não havia qualquer etiqueta de identificação da validade destes alimentos.
Também foram encontrados alimentos ultraprocessados em uma dessas escolas, como cereais com algum aditivo ou adoçante. A distribuição desse tipo de alimento nas refeições da rede municipal de ensino é proibida pelas diretrizes do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Diversos estudos associam o consumo frequente desses produtos ao aumento de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, hipertensão e diabetes.
Em 3 das escolas municipais inspecionadas foi observado o consumo de alimentos ultraprocessados.
Em 3 das escolas municipais inspecionadas foi observado o comércio de alimentos no interior das escolas.
Nenhuma das escolas inspecionadas na rede municipal de ensino tem qualquer diretriz ou norma orientando sobre o consumo de alimentos ultraprocessados nas suas dependências.
Conclusões da Auditoria sobre Buíque
As dezesseis escolas municipais de Buíque vistoriadas pelo TCE para essa auditoria foram:
- Creche Carolina Guedes de Almeida;
- Escola Municipal Abraão Lincolin (assim foi escrito o nome da escola na auditoria: a Prefeitura de Buíque diz que a escola se chama Abraão Lincoln);
- Escola Municipal Cento e Quatro;
- Escola Municipal Estelita Simões dos Santos;
- Escola Municipal Joaquim Estevam Alves;
- Escola Municipal Leone Félix dos Santos;
- Escola Municipal Pedro Francisco da Silva;
- Escola Municipal Engenheiro Klaysson de Freitas Araújo;
- Escola Municipal Santa Angélica;
- Escola Municipal São Félix de Cantalice (não confundir com a Escola Estadual de mesmo nome);
- Escola Municipal São Gerônimo;
- Escola Municipal Professora Anália Simões de Oliveira Vaz;
- Escola Municipal Antonio Yoyo;
- Escola Municipal Manoel Benício de Siqueira;
- Escola Municipal Nossa Senhora das Graças;
- Creche Cristiana Vieira dos Santos Leite.
A auditoria concluiu que em relação à infraestrutura, "especificamente nas cinco subdimensões verificadas, das 16 escolas municipais fiscalizadas, 63% apresentaram problemas na identificação e acesso; 88% apresentaram problemas na acessibilidade; 100% apresentaram problemas estruturais nas dependências físicas; 100% não tinham todas as licenças de funcionamento válidas e 100% apresentaram problemas no saneamento básico e na energia elétrica".
Já quanto à questão da gestão da alimentação escolar, "das 16 escolas municipais fiscalizadas, 100% apresentaram problemas no planejamento e cardápio; 94% apresentaram problemas na cozinha ou no refeitório; 100% apresentaram problemas no armazenamento de gêneros alimentícios; 100% apresentaram problemas nas ações de educação nutricional".
O relatório de auditoria defende uma série de determinações, ciências e recomendações ao Prefeito Túlio Monteiro para que as irregularidades apontadas nas escolas municipais de Buíque sejam corrigidas em no máximo 360 dias, e conclui:
"A garantia de condições adequadas de infraestrutura e alimentação escolar constitui investimento fundamental na qualidade da educação e no desenvolvimento humano, contribuindo diretamente para a efetivação do direito constitucional à educação de qualidade para todos os cidadãos"
O QUE DIZ A PREFEITURA DE BUÍQUE SOBRE A AUDITORIA
A Prefeitura de Buíque se manifestou oficialmente sobre o relatório de auditoria do TCE nos autos, por meio de um relatório da Secretaria de Educação e por defesa prévia do Prefeito Túlio Monteiro, feita pelo advogado Eduardo Henrique Teixeira Neves.
No documento da Secretaria de Educação, é pontuado que a gestão de Túlio iniciou em janeiro de 2025 e que visitas a todas as escolas de sua rede municipal vinham sendo feitas para identificar problemas e planejar as ações mais adequadas para resolvê-las. As visitas do TCE para sua auditoria, vale relembrar, foram feitas entre maio e outubro de 2025.



