OPINIÃO: DEBATE OU CAMPEONATO DE FARMAR AURA?

DISPONÍVEL A TODOS OS LEITORES POR TEMPO LIMITADO: O jornalista João Gabriel Silva resolveu trazer seu ponto de vista acerca do debate presidencial ocorrido ontem, compartilhando a conclusão que muitos chegaram ao assistir de que Lula e Flávio Bolsonaro deixaram a desejar no aspecto propositivo e que não estiveram ali a sério, mas sim para disputar quem teria mais visualizações nas redes sociais com os cortes (Foto: Reprodução/ TV Bandeirantes)

Leia também: Opinião- O BolsoLula existe e já está entre nós

Coluna de Opinião disponível para todos os leitores até sexta-feira, 23 de outubro. Após este período, seu acesso será restrito para assinantes do plano Cafezinho Completo: adquira-o por R$ 5/mês para ter acesso completo às outras Colunas de Opinião, bem como as matérias exclusivas deste site


AVISO AOS LEITORES: ao contrário de nossas reportagens, a Coluna de Opinião traz, como o próprio nome já diz, a opinião de quem a escreve sobre fatos concretizados, não representando necessariamente um posicionamento oficial do Podcast Cafezinho com William Lourenço, enquanto veículo de imprensa (emitido somente por meio de nossos Comunicados Oficiais e Editoriais).


Por João Gabriel Silva

No domingo, dia 18, assistimos a uma hora de terror: um debate deprimente para o tamanho do cargo que os candidatos pretendem ocupar. Em vez de projeto de país, vimos dois homens velhos disputando quem sairia do estúdio com o melhor corte para as redes.

Isso me lembrou de um termo que está comum nas redes sociais, o tal do “Farmar aura”. Para quem não está familiarizado, é a gíria da internet para quem busca acumular carisma e respeito diante do público: quem impressiona ganha aura, quem passa vergonha perde. E foi exatamente esse o campeonato que assistimos na TV Bandeirantes.

O primeiro bloco foi o retrato do problema. Quinze minutos de fala livre, sem mediação, e o que se viu foi bate-boca: Lula chamou Flávio de “malandro carioca”, Flávio atacou o presidente por causa do filho, Lula devolveu com o caso Master, que é alvo de inquérito e envolve os dois lados. Cada um buscava o golpe que rendesse o melhor trecho para sua própria turma e nenhum parecia interessado em convencer quem ainda não decidiu, visto que os indecisos são a chave para a vitória nessa eleição.

Flávio circulava atrás de Lula para não sair do enquadramento (como se fosse um ventríloquo), e Lula, que ia bem no primeiro bloco, perdeu a vantagem justamente com o “malandro carioca”: deu ao adversário tempo de resposta e a manchete do dia seguinte. Cada um trouxe sua munição para o feed, o fim da escala 6x1 de um lado, a maioridade penal do outro, e quase nada que explicasse como pretendem governar, e como pretendem negociar com o congresso que foi eleito. Teve proposta? Lula desafiou o adversário a abrir o sigilo bancário dos dois, e a resposta não veio. Flávio fez um mini mea culpa sobre a pandemia e voltou rápido ao que rende no feed.

Até os analistas, que são acostumados a analisar, divergem sobre quem foi melhor, mas concordam numa coisa: o debate muda pouco o voto e ainda pode empurrar o eleitor para a abstenção, o branco e o nulo. É um resultado estranho para um evento que foi criado e pensado justamente para ajudar a decidir.

A política virou campeonato de farmar aura: o que vale é quem sai com o melhor trecho de dez segundos, não quem convenceu o indeciso. E o indeciso, a quem o debate deveria servir, assistiu ao bate-boca, olhou para o celular e talvez tenha concluído que o melhor voto é o que não existe.

Debate bom faz o eleitor sair sabendo mais do que sabia. O de domingo fez o eleitor sair com mais cansaço do que dúvida resolvida. Se a política quer ser levada a sério, vai ter que lembrar que cargo de presidente não se disputa com corte de vídeo ou comando de exército virtual de quem quer que seja.