Leia também: Opinião- Perto demais para esquecer, longe demais para possuir
Coluna de Opinião disponível para todos os leitores até domingo, 30 de agosto. Após este período, seu acesso será exclusivo para assinantes do plano Cafezinho Completo: adquira-o por R$ 5/mês para ter acesso completo a esta e outras Colunas de Opinião, bem como as matérias exclusivas deste site
Por William Lourenço
Se você estava esperando um texto referente a mulheres com bumbuns avantajados e igualmente belíssimos nesta Coluna de Opinião unicamente pelo título, sinto muito em decepcioná-lo. O lugar para você procurar esse tipo de entretenimento e aliviar sua tensão sexual com a mão direita (ou esquerda, a depender de seu viés punheteiro) é o Instagram, o TikTok ou qualquer outro site adulto, e não este singelo site de notícias locais.
Como eu sempre faço nas Colunas de Opinião que escrevo aqui, vamos seguir uma estrutura básica. A começar, pela explicação do conceito de bundão. No sentido literal, é mesmo uma referência a uma bunda muito grande. Já no mais comum, o figurado, é uma referência a alguém covarde, frouxo, sem palavra ou sem coragem de manter um posicionamento. Há também quem use esse termo pra definir um indivíduo de mau caráter. Político, então, é um bundão por definição...
A imagem acima é de um print de uma postagem feita por Fernando Haddad, ou Taxxad para os mais íntimos: candidato a governador de São Paulo pelo PT. Na época, ele perguntou se poderia chamar de bundão o cara que fugia de um debate, uma vez que Jair Bolsonaro havia se ausentado de praticamente todos os debates em 2018 (e venceu mesmo assim). O Lula também havia faltado naquele ano, mas vamos dar um desconto: ele teria que fugir da cadeia primeiro...
Seis anos depois, e a pergunta dele finalmente ganhou uma resposta definitiva: SIM!
O Grupo Bandeirantes promoveu, como sempre, o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República no último domingo. E pasmem: o Lula faltou. Bundão?
Só que, em solidariedade ao amigo de fé e irmão camarada, o outro candidato, Flávio Bolsonaro, também não foi. Na primeira oportunidade que ambos teriam de fingir apresentar propostas e serem confrontados sobre seus erros enquanto políticos, eles resolvem não aparecer. Como dois grandes cagões. Pois ao contrário do sentido literal, um bundão é notável e aparece mesmo sem querer no ambiente.
O que mais tem no cenário político brasileiro, independente do nível, é bundão. Gente que, por conveniência própria e de uma hora para outra, muda de lado, de posição e de opinião. Ninguém precisa defender as mesmas coisas pra sempre, pois evoluir seu modo de ver certos detalhes é válido. Só que tem certas mudanças que, quando muito bruscas, são entendidas pelas pessoas como coisas de gente sem opinião própria. Em outras palavras, coisas de bundão.
Um caso de Buíque, em Pernambuco, ilustra muito bem esse choque e até essa conclusão tirada por muitos habitantes deste município. Após anos como representante da chamada oposição (que venho dizendo por aqui que não existe) e crítico ferrenho da governadora pernambucana, Raquel Lyra, o hoje vereador Elson Francisco surpreendeu ao aparecer junto ao grupo político do prefeito Túlio Monteiro... e declarando voto àquela que, não muito tempo atrás, dizia ser uma governadora "água de cuscuz".
A explicação dada pelo próprio ao amigo Adauto Nilo foi, pra mim, vaga. Como todo e qualquer político explicaria algo assim. E o contexto político não favorece nem um pouco o vereador...
Elson é filiado atualmente ao Republicanos: partido que, a nível estadual, apoia João Campos ao Palácio do Campo das Princesas. Elson também foi um dos autores da Ação de Investigação Judicial Eleitoral que cassou os mandatos dos cinco vereadores que haviam sido eleitos pelo MDB em Buíque: partido ao qual Túlio Monteiro é filiado. Essa ação teve recentemente uma decisão importante tomada no TSE, com o Ministro André Mendonça mantendo a cassação e até pedindo a inelegibilidade da candidata considerada fictícia nas eleições municipais de 2024. E não custa nada relembrar que ele, dentro de Buíque, foi um dos maiores críticos da atual governadora e candidata à reeleição. Críticas estas conhecidas pelo público dentro do município.
No jogo político, alguém com cargo eletivo precisa, muitas vezes, seguir as determinações do próprio partido. A depender das determinações, caso não as cumpra, o filiado poderá sofrer sanções do partido. Ou ele simplesmente pode querer seguir aquilo que acredita e o partido não fazer nada. Se há dois grandes candidatos a governador, por exemplo, e tal filiado não vai com a cara de nenhum, ele pode se declarar neutro e seguir sua vida.
Mas como eu sei que ele irá ler estas palavras, quero aqui deixar de forma respeitosa as seguintes questões para serem respondidas:
- O que foi que a governadora que, até pouco tempo e em sua próprias palavras, era "água de cuscuz", fez de tão extraordinário para que sua opinião acerca dela construída em quatro anos fosse completamente modificada em poucos dias?
- O que exatamente o grupo do atual prefeito de Buíque, ao qual você precisou inclusive acionar judicialmente para obter seu mandato de vereador, fez de tão extraordinário para convencê-lo a mudar uma opinião repetida exaustivas vezes ao longo dos anos sobre a candidata ao Governo de Pernambuco?
- Com falhas de ambos os candidatos, não seria mais coerente com aquilo que vinha sendo aplicado por você nesse tempo todo a neutralidade no apoio a alguém pro Governo do Estado?
- Já que seu partido, em Pernambuco, apoia um candidato, mas você se mudou pra um grupo que apoia outro, você vai ser coerente e sair do partido? E vai fazer uma coisa ainda mais incoerente, que é se filiar justo àquele que você acionou judicialmente? Ou será um pouco coerente e se filiará ao partido do atual Presidente da Câmara de Vereadores? A oposição só existia enquanto seu mandato não estivesse garantido?
- E já que estar na base do governo em Buíque significa, via de regra, não fiscalizar de forma minimamente adequada toda e qualquer coisa imoral feita pela Administração Pública, o que o eleitorado buiquense poderá esperar de sua missão como vereador? Não muito tempo atrás, você mesmo considerou um absurdo uma licitação milionária feita pela Prefeitura para varizes, se não me engano. Esse nível de cobrança permanecerá intacto, ou mudará tão rápido quanto sua opinião pública?
Certos comportamentos, independente do status do ser humano ou do local em que ele esteja situado, sem explicações plausíveis e bem detalhadas podem gerar interpretações prévias dos demais indivíduos.
Sobre o debate da Band, não houve nenhuma justificativa plausível e compreensível para as ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, mesmo suas assessorias tendo combinado as regras e confirmado as presenças previamente. A mais lógica, vinda do público, foi que eles ficaram com medo de se encontrar e de ter que responder dos outros candidatos perguntas espinhosas e com fundo de verdade sobre suas trajetórias políticas igualmente questionáveis.
Sobre o caso de Buíque, a reviravolta no apoio a uma candidatura ao Governo de Pernambuco, junto com a entrada em um grupo político ao qual o indivíduo processou para assegurar seu mandato como vereador, tudo isso em plena campanha eleitoral, só faz o mesmo público concluir que sua palavra é tão forte quanto a "água de cuscuz".
Coisas de bundão.
