OPINIÃO: O ESPANTO E O PROCESSO



DISPONÍVEL A TODOS OS LEITORES POR TEMPO LIMITADO: O que será que tem a ver as estrelas que brilham sob nossas cabeças com a vida? Por vezes, conversas que trazem perguntas aparentemente sem sentido resultam em reflexões interessantes, como a desta Coluna de Opinião (Foto de Lester Bonilla para Pexels)


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Por João Gabriel Silva

Durante uma conversa com Fah, sobre fatos interessantes, discutimos que ao observamos as estrelas, na verdade estamos testemunhando ecos de um distante passado. Muitas das estrelas que vemos no céu noturno já não existem mais. A luz estelar viaja a 300 mil quilômetros por segundo em todas as direções, atravessando distâncias que podem levar milhões de anos para serem alcançadas.

Quando esse brilho finalmente nos atinge, várias dessas estrelas já esgotaram toda a sua energia, culminando em explosões estelares e nebulosas. Essa discussão me fez pensar: por que nos maravilhamos ao olhar para o passado das estrelas, mas quando refletimos sobre nosso próprio passado, fazemos isso com julgamento e crítica? Bem, vamos a algumas reflexões a que cheguei.

Todas as noites, sem nos darmos conta, nos envolvemos em um pequeno ato de arqueologia. Olhamos para o alto e contemplamos a luz que partiu há anos, décadas, talvez até séculos a luz de estrelas que, possivelmente, já não existem da mesma forma. E não exigimos explicações. Não questionamos à estrela por que brilhou daquela maneira, por que demorou tanto para chegar até nós ou por que não seguiu um caminho mais direto, nós penas observamos, maravilhados com a cena que nossos olhos enxergam.

É curioso que essa atitude não se estenda à nossa própria história. O passado de uma vida é, de certa forma, como a luz que ainda está chegando. Cada lembrança que revisitamos é uma reconstrução, nunca o evento original, mas sua imagem atrasada, filtrada pelo tempo e pela perspectiva atual. Nesse sentido, rememorar é um pouco como observar as estrelas: nunca vemos o fato em si, apenas seu vestígio.

A diferença reside em como tratamos esse vestígio. Sob o céu noturno, contemplamos. Quando se trata de nós mesmos, instauramos um tribunal interno e nos tornamos juiz e carrasco de nosso próprio passado. Seguem-se questionamentos e sentenças como: "Poderia ter agido diferentemente", "Perdi tempo com aquilo", "Por que demorei tanto para entender?". Substituímos o encantamento pelo julgamento, transformando-nos em réu e juiz da própria jornada, buscando culpados onde talvez houvesse apenas o tempo desempenhando seu papel.

Esquecemos o que já dizia o Eclesiastes, no capítulo 3: há um tempo certo para tudo, um propósito para cada coisa debaixo do céu. Tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de guardar e tempo de descartar, tempo de calar e tempo de falar. O texto não separa os tempos em bons e ruins, certos e errados; apenas os distingue na sua própria temporalidade. Cada coisa tem seu momento apropriado, e esse momento não responde a nenhum tribunal posterior. O Eclesiastes não prevê um tempo de "deveria ter sido diferente". Existe apenas o tempo adequado para cada coisa, completado, ou seja, não podemos adiantar o tempo como tão pouco o perderemos.

É isso que o tribunal interno ignora: julga o tempo de plantar usando os critérios do tempo de colher. Exige do momento de chorar a clareza que só é permitida após o riso. Toda sentença aplicada ao passado comete esse mesmo erro anacrônico, avaliando um momento com a régua de outro, como se todos os tempos tivessem sido sempre o agora, e que todos nós tivéssemos o mesmo tempo. Mas não é assim que as coisas funcionam.

É fácil entender por que ocorre essa diferença. A estrela não pertence a nós. Não temos investimento nela; não temos a ilusão de que podemos mudá-la. Já o nosso passado carrega a persistente ilusão de que ao examiná-lo minuciosamente ainda podemos reescrevê-lo. E é essa ilusão, não a lembrança em si que gera a cobrança. Julgamos o passado como se ele ainda estivesse indefinido, como se o julgamento de hoje pudesse mudar o que já aconteceu.

Contudo, isso não é possível. E talvez seja exatamente aí que esteja a possibilidade de um novo olhar. Se o passado já está dado, irrecuperável como a luz emitida por uma estrela há mil anos, julgar não altera nada exceto o presente daquele que julga, que se enche desnecessariamente de peso. A maravilha, por outro lado, não exige que o passado seja diferente do que foi. Ela apenas o reconhece, à distância, como algo que ocorreu e que contribuiu para formar quem somos agora, não podemos mudar o passado, mas podemos usá-lo de aprendizado na construção do agora e do futuro vindouro.

Não se trata de abandonar a reflexão sobre os próprios erros ela tem seu lugar e dela vêm aprendizados valiosos. Trata-se de outra coisa: perceber quando a reflexão se transforma em processo acusatório, quando a análise vira sentença. E, nesse instante, tentar ainda que por um momento olhar para dentro com a mesma generosidade distante com que observamos as estrelas, afinal, dentro de cada um pode-se ter o brilho de uma estrela.

Afinal, dentro de cada um pode haver o brilho de uma estrela, mesmo que ainda adormecido. Como diz O Pequeno Príncipe, "os adultos são decididamente muito extraordinários". E o livro segue lembrando os adultos de que também foram crianças um dia, porque são as crianças que ainda sabem reconhecer o próprio brilho.

Talvez a questão não seja como reescrever o passado. Talvez seja aprender a olhá-lo sem exigir dele aquilo que nunca foi sua função oferecer: uma justificativa que nos isente. A estrela não se explica; ela simplesmente chega. E isso, de alguma forma, já é suficiente.


P. S.: Sou grato à Fah por todas as conversas inspiradoras e pelas ótimas reflexões que ela sempre me oferece.