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| DISPONÍVEL PARA TODOS OS LEITORES POR TEMPO LIMITADO: Se você precisa de uma dica literária para esta semana, esta Coluna de Opinião chega no momento certo. Sonho, realidade, amor e sofrimento são algumas das coisas que podem ser encontradas no livro Noites Brancas, a ser destrinchado por aqui (Foto de Ron Lach para Pexels) |
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Por João Gabriel Silva
Há uma forma particular de sofrimento que nasce quando alguém não nos escolhe. Ela não se parece exatamente com o luto de uma separação, porque às vezes sequer houve um relacionamento para terminar. É dessa espécie de dor que Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, parece falar.
O sonhador conhece Nástienka e, em pouco tempo, estabelece com ela uma intimidade que ultrapassa a duração objetiva daquele encontro. Eles conversam, compartilham suas solidões, seus medos e suas esperanças. Para ele, porém, aquele encontro não permanece apenas como um acontecimento.
Aos poucos, torna-se uma promessa. O outro deixa de ser apenas alguém que apareceu e passa a ocupar o lugar de alguém que poderia permanecer. É aí que começa o sofrimento. Pois, talvez, ele não se apaixone por ela em si, mas por sua história em que ele se reconhece.
Porque nós não nos relacionamos apenas com as pessoas que existem diante de nós. Também nos relacionamos com aquilo que imaginamos que elas podem vir a ser em nossas vidas. O desejo possui essa característica curiosa: ele não precisa de realidade para crescer. Às vezes, basta uma possibilidade. Não uma possiblidade real, mas sim uma possibilidade idealizada em que há mais fantasia que realidade.
O sonhador de Noites Brancas é justamente um homem profundamente atravessado pela imaginação, não à toa ele é chamado de Sonhador. Ele vive muito no mundo interior. Antes que uma relação realmente exista, ela já encontrou espaço dentro dele. E talvez esse sonho nunca seja só do sonhador. Ser a escolha de alguém, sem precisar merecer isso, é um desejo que muitas vezes remonta à infância de muitos de nós, esse tempo em que deveríamos ter sido escolhidos primeiro, de graça. Nem todos tiveram essa garantia. E quando ela falta cedo, fica uma fome antiga, que a rejeição, mais tarde, sabe muito bem como reabrir. Essa experiência definitivamente não pertence apenas ao personagem de Dostoiévski. Ela é profundamente humana.
Quando alguém que desejamos não corresponde ao nosso desejo, é comum que a pergunta não seja apenas "por que essa pessoa não me quer?". Em algum momento, ela se transforma em uma pergunta muito mais íntima: "por que eu não fui suficiente?", “o que falta em mim que o outro tem?”, “o que tem de errado comigo?”, “eu não mereço ser feliz?” ...
É aí que a rejeição deixa de parecer apenas uma incompatibilidade entre duas pessoas e passa a ser vivida como julgamento sobre o próprio valor, a uma reabertura de uma ferida que talvez nunca tenha sido fechada completamente.
A dor de não ser escolhido pode atingir uma região muito mais profunda do que o afeto. Ela pode atingir a imagem que construímos de nós mesmos. Não ser desejado por alguém pode fazer nascer a sensação de não ser desejável. Não ocupar o lugar de prioridade na vida de alguém pode ser confundido com não possuir valor, não ter importância nenhuma para qualquer pessoa.
Mas existe uma diferença fundamental entre essas coisas. Uma pessoa não nos escolher romanticamente não significa que exista algo defeituoso em nós que explique a recusa. O desejo não funciona como uma meritocracia afetiva, ele não vem com senso de justiça em que os bons são seus merecedores. Não existe uma soma de qualidades beleza, inteligência, cuidado, disponibilidade, sensibilidade capaz de garantir reciprocidade, isso depende mais do outro do que de você em si. Isto é, se desejo alguém, isso não implica que o outro me deseje também.
O amor não distribui medalhas aos mais preparados, escutar o outro, ajudar, estar presente, ser o melhor para o outro não lhe garante amor, como também a pessoa a qual você foi tão solicito vai obrigatoriamente lhe amar, se você fizer tudo isso, será por sua conta e risco.
Em Noites Brancas, Nástienka não trata o sonhador com desprezo. Pelo contrário: ela confia nele, procura sua companhia, permite que ele participe de sua intimidade. Ele é importante para ela. Só não ocupa o lugar que ele deseja ocupar. Este lugar foi reservado a outro, e é isso que poder levar a mais comparações do tipo: “o que ele tem que eu não tenho?”, “por que ele merece mais que eu?”, essas dúvidas mergulham a pessoa em um vazio profundo de autocomiseração.
Talvez essa seja uma das formas mais dolorosas da rejeição: descobrir que somos importantes para alguém, mas não da maneira que gostaríamos de ser.
Há uma cena, perto do fim da novela, que resume isso melhor do que qualquer análise. Depois de noites inteiras de conversa, confidência e proximidade quase amorosa, é o outro homem, aquele por quem Nástienka esperava desde o início, e de cuja volta ela já quase desistira que reaparece e a leva consigo. O sonhador assiste a esse reencontro sabendo que, minutos antes, ainda podia imaginar um futuro ali. Não existe traição nesse gesto de Nástienka: ela nunca prometeu ficar. Existe apenas o mundo seguindo o rumo que sempre foi dele, e não o rumo que a imaginação do narrador havia desenhado. É exatamente essa distância entre o roteiro interior e o desfecho real que dói.
O "quase" traz uma violência particular: quando uma relação é totalmente rejeitada, existe um limite; quando é correspondida, abre-se um caminho. No entanto, quando há afeto sem reciprocidade romântica, ficamos em uma zona intermediária, perto demais para esquecer, longe demais para ter. Uma relação que se estabeleceu foi testada pelo cotidiano, caracterizada por erros e inconsistências. O que nunca ocorreu permanece protegido da realidade, preservando sua perfeição por não ter sido exposto às imperfeições do mundo. Portanto, em certas situações, sofremos mais por uma possibilidade do que por um relacionamento real: não perdemos apenas uma pessoa, mas também uma versão potencial de nós mesmos.
Para o sonhador, Nástienka representava a oportunidade de deixar de ser um homem solitário e tornar-se alguém amada. O que se encontra em jogo não é simplesmente "ficar ou não ficar com ela". É a fantasia de finalmente ocupar um lugar especial na vida de alguém.
Ser escolhido de forma romântica parece validar algo a nosso respeito. Por um breve momento, o anseio do outro age como um espelho, refletindo a imagem de alguém atraente, relevante e único. Quando essa opção não é feita, o espelho parece se quebrar.
A maturidade emocional talvez comece exatamente quando conseguimos lidar com essa fissura sem transformar a falta de desejo do outro em uma afirmação sobre nossa identidade. Nem todo desencontro precisa ser resultado de uma falha. Às vezes, duas pessoas apenas querem coisas diferentes para o futuro. Isso não diminui a dor da experiência. Apenas evita que a dor tenha que se converter em humilhação.
Podemos considerar o sofrimento amoroso como uma forma de luto, não apenas pelo que possuímos, mas pelo que acreditávamos que teríamos. Existem perdas que não têm fotos, festas de aniversário ou recordações concretas. São perdas feitas de possibilidades. O futuro que não aconteceu também pode ser objeto de luto.
É por isso que Noites Brancas continua sendo relevante. Dostoiévski não se limita a narrar a história de um homem que não pôde ficar com a mulher amada. Ele revela uma experiência mais abrangente: a dificuldade humana em aceitar que nossas expectativas sobre um relacionamento não definem a realidade do outro.
Queremos reciprocidade, porém o anseio não pode ser imposto. Desejamos ser escolhidos porque, em essência, há um aspecto profundamente humano nesse desejo de ter significado para alguém. Desejamos ser únicos, especiais e indispensáveis. Desejamos que o outro valide a narrativa que criamos sobre nós mesmos.
A questão é que o outro é diferente. Ele tem seus próprios anseios, recordações, temores, decisões e trajetórias. E nada disso precisa seguir o nosso roteiro. Essa é a breve tragédia contida em Noites Brancas: o sonhador encontra alguém capaz de iluminar sua solidão, mas não consegue transformar esse encontro em permanência.
Mesmo assim, há algo de bonito nisso. Porque nem tudo que nos muda precisa ser eterno. Algumas pessoas cruzam nosso caminho não para permanecer, mas para trazer à tona algo que estava oculto em nós. Naquela noite, o sonhador pode perceber não só o quanto anseia por Nástienka, mas também o quanto anseia por não estar mais sozinho.
E talvez essa seja a questão que fica após a rejeição: Eu sofro pela perda daquela pessoa ou porque ela representava uma oportunidade de vida que eu ansiava viver? A diferença entre essas duas coisas é sutil à primeira vista, mas significativa em seu interior.
Pois, ao conseguirmos separá-las, inicia-se uma tarefa árdua e silenciosa: aceitar que o outro não nos escolheu sem chegar à conclusão de que, por isso, não somos dignos de escolha.
Existem dores que não precisam ser resolvidas imediatamente. Algumas precisam primeiro ser compreendidas. A dor de não ser escolhido é uma delas.
Porque, no fundo, ela nunca é apenas sobre o outro.
Ela também fala do nosso desejo de ser vistos, confirmados, amados, e do difícil aprendizado de descobrir que o nosso valor não pode depender inteiramente de quem decide nos amar.
