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| Falta de conexões sociais afeta saúde de diversas formas, desde aumento do estresse até dificuldade de adesão ao tratamento |
Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein
A solidão e o isolamento social aumentam
o risco de morte em pacientes com câncer, mostra um artigo que compila as
evidências dessa associação, publicado no British Medical Journal.
Os autores fizeram uma revisão
sistemática e metanálise de 16 estudos em várias bases de dados e constataram
um aumento de 34% no risco de morte em geral e 11% na mortalidade relacionada
ao câncer entre pacientes solitários ou socialmente isolados. Os dados mostram
que entre 16% e 47% dos pacientes oncológicos se sentem sós.
Segundo os pesquisadores, a solidão,
definida como a percepção da desconexão social, e o isolamento (falta de
relacionamentos) podem afetar a saúde de várias formas. A sensação de estar
sozinho pode causar aumento do estresse, o que prejudica o sistema imunológico;
e a falta de suporte pode dificultar a adesão ao tratamento e até mesmo o
reconhecimento precoce de complicações.
Por outro lado, a própria doença pode
favorecer o isolamento, já que problemas trazidos pelo tratamento, como cansaço
ou mal-estar, limitam a participação em atividades sociais. E esse é um ponto para
o qual os próprios médicos deveriam olhar mais. “Na prática oncológica
tradicional, avaliamos [aspectos como] performance, status,
estadiamento, biologia tumoral, comorbidades, toxicidade, mas raramente
analisamos de forma estruturada quem mora com o paciente, se há cuidador
confiável, se tem suporte emocional real, se há risco de isolamento social”,
observa a oncologista Ludmila Koch, do Einstein Hospital Israelita.
Isso é ainda pior nos casos em que o
paciente é idoso, está em tratamento oral, em situação paliativa, ou é socioeconomicamente
vulnerável. Entre as possíveis intervenções para minimizar esse isolamento estão
medidas como envolvimento precoce do serviço social, grupos de suporte e telemonitoramento
estruturado. “A oncologia moderna é altamente baseada em medicina de precisão.
Mas este artigo lembra algo essencial: o câncer não ocorre em isolamento
biológico, ocorre em um contexto social. Talvez esse seja um dos próximos
passos da oncologia de precisão”, analisa a médica do Einstein.
No entanto, os resultados do artigo devem
ser interpretados com cautela, já que se baseiam em estudos observacionais. “O
impacto é estatisticamente significativo e clinicamente plausível, sobretudo
para mortalidade global. Mas não é possível afirmar uma relação de causa e
efeito. Pacientes com câncer mais avançado ou em pior estado de saúde podem
sentir-se mais solitários e, ao mesmo tempo, ter maior risco de morte”, pondera
Ludmila Koch. Os próprios autores recomendam mais estudos para avaliar essa
associação.
Fonte: Agência Einstein
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