Há pessoas que não te enxergam de verdade, elas te calculam.
Não é maldade declarada, não é vilania de rosto descoberto. É
algo mais silencioso e por conta disso mais difícil de nomear. É a atenção que
passa por você sem pousar até o dia que precise de sua ajuda para algo. Aí
finalmente pousa.
E você sente muito isso. Sente o acalentamento repentino, a
proximidade que não existia ontem. E você em sua inocência quer acreditar que
dessa vez vai ser diferente, que a pessoa mudou, enxergou seu valor, que
finalmente ela lhe notou.
Mas não foi isso. Você apenas foi lembrado.
E aqui cabe uma coisa importante, mas dura de se ouvir: ser
lembrado e ser visto tem uma diferença cruel. Quem te vê, te acolhe, te
carrega, mesmo quando não precisa de você para algo, simplesmente te quer por
perto. Quem lembra de ti, só te encontra quando o copo está vazio, e o copo
pode estar vazio de dinheiro, de atenção, de tempo, de consolo, de trabalho de
faculdade....
Você ajuda. Claro. Porque você é o tipo de pessoa que ajuda
a todos, mesmo que isso te leve a ser muitas vezes usado.
E então some o problema, e a pessoa some junto.
Daí você fica lá, com a generosidade nas mãos, tentando entender
por qual motivo doar algo bom deixa um gosto tão amargo.
Talvez não seja ingenuidade ou idiotice sua. É a consciência deles que falta.
