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| Pesquisa com cerca de 10 milhões de pessoas mostra que pressão alta, colesterol elevado, glicemia alterada e tabagismo são frequentes na maioria dos eventos cardiovasculares |
Por Léo
Marques, da Agência Einstein
Embora
percebido como um evento repentino, o infarto costuma ser o desfecho de um
processo silencioso, que se desenvolve ao longo de anos. É o que indica um
estudo internacional publicado no Journal of the American College
of Cardiology, com dados
de mais de 9,3 milhões de pessoas na Coreia do Sul e de 6.803 indivíduos nos
Estados Unidos.
A
pesquisa investigou quais condições estavam presentes antes do primeiro evento
cardiovascular — como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC),
doença arterial coronariana ou insuficiência cardíaca — e encontrou um padrão
consistente: em mais de 99% dos casos, havia ao menos um fator de risco prévio,
e entre 93% e 97% dos pacientes apresentavam dois ou mais fatores combinados.
Os
pesquisadores avaliaram quatro vilões clássicos: pressão arterial acima do
ideal, colesterol elevado, glicemia alterada e histórico de tabagismo. E foram
além dos diagnósticos formais: mesmo níveis considerados limítrofes, como
pressão “normal-alta” ou pré-diabetes, entraram na conta, porque também
aumentam o risco ao longo do tempo. Na prática, o estudo desmonta a ideia
popular do “infarto do nada.”
Também
chama atenção para um ponto crítico: o problema, muitas vezes, está no risco
não identificado ou não tratado, mesmo quando as alterações parecem discretas.
Pressão “normal-alta” (aquela que marca 120x80 mmHg, ou 12x8), glicemia em
estágio de pré-diabetes e colesterol moderadamente elevado já demandam
acompanhamento e, em muitos casos, intervenção. “O infarto deixa de ser visto
como um evento súbito e imprevisível e passa a ser entendido como o desfecho de
um processo crônico, progressivo, que evolui ao longo dos anos e, na
maioria das vezes, pode ser prevenível”, avalia a cardiologista Juliana
Tranjan, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
Ataque
silencioso às artérias
Por
trás dessa progressão está a aterosclerose, o acúmulo gradual de gordura e
inflamação na parede das artérias, levando à formação de placas. Se uma delas
rompe, o organismo pode formar um coágulo no local, bloqueando a circulação.
Quando isso acontece nas coronárias, surge o infarto. “Diabetes, obesidade e
outros distúrbios metabólicos atrapalham a parede do vaso e facilitam o acúmulo
de gordura, levando ao entupimento”, detalha o endocrinologista Márcio
Weissheimer Lauria, coordenador do departamento de Dislipidemia e Aterosclerose
da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e professor de
Endocrinologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A
pressão alta lesa o endotélio, camada interna dos vasos. O colesterol LDL
elevado favorece o depósito de gordura nas artérias. Por sua vez, a glicose em
excesso aumenta a inflamação vascular. Já o cigarro, além de inflamação, causa
estresse oxidativo e pode levar à instabilidade da placa ateromatosa. “Esses
fatores associados levam a um maior risco de ruptura e trombose de placa
aterosclerose, ocasionando o infarto agudo do miocárdio”, pontua Tranjan.
Esse
processo é lento e gera adaptações no organismo ao longo dos anos. Por isso, em
alguns casos, é assintomático. Quando aparecem sintomas, os alertas podem ser
discretos demais para chamar atenção: cansaço fora do habitual, queda no
desempenho físico, falta de ar ao fazer esforço e desconforto torácico. Sinais
facilmente atribuídos também ao estresse, à idade ou ao sedentarismo.
A
boa notícia é que esses fatores são, em grande parte, modificáveis. Mudanças no
estilo de vida conseguem reduzir risco, desacelerar a progressão da doença
aterosclerótica e até promover remissão de alterações metabólicas. Perda de
peso, alimentação equilibrada, atividade física regular, abandono do cigarro,
sono adequado e controle medicamentoso, quando necessário, fazem diferença.
“Poucos
meses de intervenção com perda de peso e exercício físico consistentes já têm
repercussão positiva e você consegue ver resultados em novos exames”, ressalta
Lauria. Quanto antes essa intervenção começar, maior a chance de reversão. Em
fases mais avançadas, o foco passa a ser estabilizar o problema e evitar a
progressão.
Exames
simples ainda são poderosos
Apesar
do interesse crescente por marcadores sofisticados, boa parte do rastreamento
cardiovascular continua dependendo de ferramentas bastante acessíveis, como
medição da pressão arterial, da glicemia, do colesterol e dos triglicérides,
além do monitoramento de peso e circunferência abdominal. “Os exames de rotina
devem ser individualizados de acordo com história clínica, comorbidades e
história familiar de cada paciente. Dessa forma, conseguimos fazer um rastreio
mais refinado e prevenção da doença cardiovascular”, reforça a cardiologista do
Einstein em Goiânia.
Marcadores
adicionais, como apolipoproteína B e lipoproteína(a), podem ajudar em casos
específicos, especialmente em pessoas com histórico familiar forte ou eventos
cardiovasculares sem explicação clara. A lipoproteína(a), por exemplo, é um
fator genético e sua dosagem é recomendada ao menos uma vez na vida por algumas
diretrizes internacionais. Outro exame relevante para medir o risco
cardiovascular é o escore de cálcio coronariano, exame de tomografia para
quantificar placas de gordura calcificadas nas artérias do coração.
A
prevenção cardiovascular não começa quando surge dor no peito, mas sim muito
antes, no acompanhamento médico regular, nos exames de rotina e no controle de
alterações aparentemente pequenas. “A doença aterosclerótica se desenvolve ao
longo de décadas. O evento agudo é a manifestação tardia de algo que já estava
acontecendo silenciosamente, por isso é tão importante a prevenção”, conclui Juliana
Tranjan.
Fonte: Agência Einstein

