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| Escovação difícil, seletividade alimentar, dor silenciosa e acesso limitado a especialistas tornam essencial a atuação integrada entre profissionais e famílias |
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Por
Fernanda Bassette, da Agência Einstein
Cuidar
da saúde bucal de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) é, para
muitas famílias, um exercício diário de paciência, adaptação e persistência. A
escovação dos dentes, um hábito aparentemente simples, pode se transformar em
um momento de tensão, muitas vezes marcado por resistência e choro. Embora
dificuldades na higiene oral também possam ocorrer em crianças neurotípicas, no
caso do autismo elas tendem a ser potencializadas por fatores sensoriais e
comportamentais.
Entre
os obstáculos mais frequentes estão a hipersensibilidade ao toque, ao sabor e à
textura, além de dificuldades de comunicação e compreensão da rotina. “Muitas
crianças não toleram a escova na boca ou não entendem a necessidade da higiene,
o que torna o processo estressante para toda a família”, relata a
cirurgiã-dentista Danielle Lima Correa de Carvalho, professora da graduação em
Odontologia do Einstein Hospital Israelita. Isso pode levar ao desgaste
emocional dos cuidadores e, em alguns casos, à negligência da escovação.
As
disfunções sensoriais estão no centro desse desafio. Para algumas crianças, o
simples contato das cerdas da escova ou com a espuma do creme dental pode ser
percebido como invasivo e até doloroso. “Esses estímulos funcionam como
gatilhos para crises e comportamentos de esquiva”, explica o cirurgião-dentista
Márcio Ajudarte Lopes, professor titular de estomatologia da Faculdade de
Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São
Paulo.
Por
isso, a higiene bucal costuma exigir abordagens individualizadas e, muitas
vezes, um processo de dessensibilização gradual. Na prática, significa
introduzir o contato progressivamente, em etapas pequenas, previsíveis e
repetidas, respeitando o tempo da criança em vez de impor a escovação completa
de uma só vez. O objetivo é reduzir, gradualmente, a sensibilidade e a
resistência, até que o cuidado com a boca se torne mais tolerável e,
idealmente, parte da rotina.
Esse
processo vai além da saúde oral e pode impactar diretamente o desenvolvimento
infantil. “A saúde bucal influencia a nutrição, o sono, a comunicação e o
bem-estar emocional. Dor ou desconforto não tratados podem agravar a
irritabilidade, prejudicar a alimentação e comprometer habilidades de fala e
linguagem”, afirma o neurologista infantil Paulo Emidio Lobão Cunha, membro do departamento
científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Segundo
ele, tratar problemas bucais nessa população também está associado a redução de
comportamentos disruptivos e melhora da qualidade de vida.
Nesse
contexto, insistir num atendimento odontológico abruptamente pode ter efeito
contrário. O ideal é começar lentamente, sempre respeitando os limites da
criança. “O atendimento deve priorizar a ambientação e a dessensibilização do
paciente, em um ambiente com estímulos sensoriais controlados e apoio de
recursos visuais que antecipem o que será feito. O acolhimento da família e a
construção de uma rotina preventiva são fundamentais antes de qualquer
intervenção clínica invasiva”, orienta a cirurgiã-dentista Tamiris Christensen
Bueno, doutora em estomatopatologia e pesquisadora na Unicamp.
Isso
ajuda a criar previsibilidade, algo especialmente importante para pessoas com
TEA. “Eles gostam de rotina e de saber exatamente o que vai acontecer”, avisa a
cirurgiã-dentista Marina Gallottini, professora titular da disciplina de
estomatologia e coordenadora do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais
(CAPE) da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP). A
introdução do creme dental, por exemplo, pode ser feita de maneira progressiva
ou até mesmo adiada, dependendo do perfil da criança. “Se houver recusa, o mais
importante é manter a escovação mecânica, mesmo sem pasta, para remover o
biofilme. A ideia é priorizar o hábito e reduzir o estresse, incorporando novos
elementos aos poucos”, diz Gallottini.
Seletividade alimentar
Outro
fator que contribui para o risco aumentado de problemas bucais é a seletividade
alimentar, bastante comum em crianças autistas. Dietas restritas,
frequentemente ricas em preparações pastosas e açucaradas, que aderem mais
facilmente aos dentes, favorecem o desenvolvimento de cáries.
“A
maior ocorrência de cáries e doenças gengivais nesse público está ligada a um
conjunto de fatores: a dieta seletiva, a dificuldade na higiene bucal por conta
da resistência sensorial e, ainda, o uso de medicamentos que reduzem a
salivação. Soma-se a isso o acesso mais limitado a consultas preventivas,
favorecendo a progressão mais rápida desses problemas”, reforça Márcio Lopes,
da Unicamp.
A
identificação precoce de problemas bucais também pode ser desafiadora, já que
muitas dessas crianças têm limitações na comunicação verbal. Por isso, os
sinais costumam ser indiretos: irritabilidade, recusa alimentar, alterações no
sono ou o hábito de levar a mão à boca. “Os pais também devem observar manchas
nos dentes, sangramento gengival e mau hálito persistente”, orienta Danielle
Correa, do Einstein.
O elo
entre dor e comportamento, aliás, costuma passar despercebido. “Crianças com
TEA muitas vezes não conseguem expressar a dor de forma convencional, e o
desconforto pode se manifestar como agitação, autoagressão, recusa alimentar ou
piora súbita do comportamento”, explica a neurologista infantil Ana Carolina
Coan, vice-coordenadora do departamento de neurologia infantil da Academia
Brasileira de Neurologia. Segundo ela, diante de mudanças comportamentais sem
causa aparente, a dor de origem bucal deve sempre ser considerada.
Apesar
das dificuldades, um ponto é consenso entre os especialistas: quanto mais cedo
começar o acompanhamento odontológico, melhor. O ideal é que a primeira
consulta ocorra ainda no primeiro ano de vida, com foco na adaptação ao
ambiente e na criação de vínculo, sem necessariamente existir um problema. Conhecido
como condicionamento, esse processo permite que a criança se familiarize
gradualmente com o consultório, os instrumentos e os profissionais. “O
encaminhamento ao odontopediatra deve ser precoce, de preferência logo após o
diagnóstico, para atuar preventivamente e evitar procedimentos mais complexos
no futuro”, orienta Paulo Cunha, da SBP.
Nos
casos em que o manejo comportamental não é suficiente, pode ser necessário
recorrer à sedação, especialmente para procedimentos mais complexos como
extração dentária ou restaurações. “Em situações de grande resistência, a
anestesia geral em ambiente hospitalar garante mais segurança e permite
realizar todos os tratamentos de uma vez”, explica a cirurgiã-dentista Letícia
Bezinelli, coordenadora do Serviço de Odontologia Hospitalar do Einstein e da
graduação de Odontologia. A decisão, no entanto, deve ser sempre
individualizada.
Abordagem multidisciplinar
A boa
notícia é que iniciativas voltadas ao atendimento especializado vêm ampliando o
acesso e melhorando a experiência não apenas de crianças com TEA, mas com
qualquer neurodivergência. Um exemplo é o programa desenvolvido no Hospital
Infantil Darcy Vargas, unidade pública estadual em São Paulo gerida pelo
Einstein, que aposta em uma abordagem multidisciplinar e humanizada.
O
atendimento especializado inclui desde o acompanhamento ambulatorial até
procedimentos em centro cirúrgico, sempre com planejamento individualizado e
foco no cuidado integral. Segundo Bezinelli, o diferencial está na integração
entre áreas da saúde, no ambiente adaptado e no preparo das equipes para lidar
com pacientes com necessidades especiais.
Embora
o acesso a serviços como esse ainda seja desigual no país, pouco a pouco, a
medicina e a ciência avançam na compreensão de como assegurar mais saúde e
qualidade de vida a crianças e pessoas de todas as idades e condições.
Fonte: Agência Einstein
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