OPINIÃO: A SALA DE ESPERA

DISPONÍVEL A TODOS OS LEITORES: Nesta Coluna de Opinião aberta ao público, o colunista João Gabriel Silva falará sobre como a vida, em alguns momentos, pode ser comparada a uma eterna "sala de espera". Sobretudo, se quem está nela for muito ansioso para querer realizar as coisas (Foto de Renee B para Pexels) 

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Por João Gabriel Silva

Curioso pensar como procuramos apressar o tempo, sonhamos e queremos realizar no dia seguinte, como se o presente fosse a sala de espera de uma vida que ainda vai começar. E quando esse amanhã finalmente bater à porta, trará consigo um novo amanhã a ser desejado, isto é, uma fila de dias que nunca se deixam viver, só antecipar.

Lacan diria que isso faz parte da lógica do desejo, um desejo que nunca cessará, pois somos sujeitos de falta. E essa falta nunca será satisfeita, pois não é um objeto que a completa, ela é a própria estrutura do sujeito. Por isso o "amanhã" seduz mais que o hoje: não é que o dia seguinte seja insuficiente, é o nosso desejo que se desloca para o próximo dia antes mesmo que cheguemos lá, sempre um passo à frente do que se realiza.

Vejamos um exemplo pessoal disso: ontem fui a um show que era, literalmente, um sonho de infância. E mesmo ali, diante do que um dia desejei tanto, percebi que parte de mim seguia cobrando os outros sonhos os que ainda não aconteceram. Como se realizar um não bastasse para aquietar a falta; ela simplesmente migra para o próximo.

Entendi isso ontem, vendo um sonho de infância se realizar num palco: mesmo lá, eu já cobrava de mim os sonhos que ainda não cumpri. A falta não comemora ela recalcula, perdido no meio da multidão, curtia e ao mesmo tempo refletia em quanta coisa que sonhei ainda falta realizar

Creio que essa não seja apenas uma questão exclusiva minha, vivemos “sempre um passo à frente do que se realiza": "Basta ver o que acontece quando um sonho antigo finalmente se cumpre: em vez de repouso, vem a cobrança pelos sonhos que ainda faltam”.

Nesse momento em que eu pensava, Nando Reis cantava a canção “Dessa Vez”. Eu fiz a minha interpretação da letra: ela é uma fuga dessa lógica, uma canção que não pede pelo amanhã, ela propõe olhar para trás e admirar o que já foi vivido, sem pressa de que “dessa vez” seja diferente ou até mesmo melhor.

Há um verso que diz: “por pensar demais, preferi não pensar demais”. Isso me fez imaginar uma saída possível para a falta que Lacan tanto fala: não é resolvê-la, mas suspender a sua cobrança excessiva, isto é, talvez a única trégua possível seja não vencer o desejo, mas, por um momento (nem que seja breve), recusar-se a antecipá-lo.

Talvez seja só isso: aprender, de vez em quando, a sair da sala de espera e ficar um pouco na sala em que já se está mesmo sabendo que amanhã o desejo vai bater à porta de novo. Naquela noite, ao menos, deixei que ele esperasse.

Posso dizer que por breves momentos apenas vivi o momento presente (como diz a fenomenologia), por fim, é preciso dizer que o desejo nuca para de correr para o amanhã. Mas de vez em quando, por alguns instantes, podemos apenas ficar e aproveitar.