DISPONÍVEL A TODOS OS LEITORES POR TEMPO LIMITADO: Nesta Coluna de Opinião, falaremos sobre uma decisão que muitos de nós precisamos tomar em algum momento de nossas vidas, que é o de sair de determinadas situações nas relações humanas quando não existem mais vantagens ou motivos plausíveis para permanecer ali (Foto de Masi para Pexels)


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Por João Gabriel Silva

Tem frases que a gente só consegue dizer depois que já cansou. Não antes. Antes, a gente ainda está calculando de outro jeito, tentando entender a regra, decifrar o próximo movimento, adivinhar o que falta fazer para que aquilo finalmente vire alguma coisa. "Não ganho nada ficando, não perco nada indo embora", essa frase cirúrgica dita por Thays em uma de nossas conversas filosófico-analíticas não é o começo de um raciocínio. É o que sobra depois que o raciocínio já foi feito outras cem vezes, de outras formas, e sempre chegou no mesmo lugar.

Por isso ela soa tão fria. Parece uma equação: de um lado o ganho, do outro a perda, e no meio uma pessoa fazendo conta como se estivesse decidindo entre duas prateleiras de mercado. Mas quem já esteve nessa posição sabe que não é frieza, é justamente o contrário disso. É o calor todo que sobrou de tanto esperar, agora represado atrás de uma frase que finge ser lógica.

Porque, convenhamos: jogo é isso. É um sistema de regras que nunca são ditas com todas as letras, só sugeridas, só insinuadas, e que mudam exatamente quando você acha que aprendeu. Você fica tentando entender o que aquele silêncio quer dizer, o que aquele "depois te falo" está escondendo, se aquele carinho de ontem ainda vale hoje. E o problema do jogo não é perder, é nunca saber se está ganhando ou perdendo, porque ninguém lhe mostra o placar, isto é, você fica a imaginar, até se cansar.

Chega uma hora em que a pessoa não aguenta mais jogar sem saber as regras. E aí ela diz a frase. E a frase funciona como um degrau: ela precisa ser dita, mesmo que não seja inteiramente verdadeira, porque é o que dá coragem de sair pela porta.

Porque, na real, sair também custa alguma coisa. "Não perco nada indo embora" é o tipo de frase que a gente diz para não sentir o tanto que, sim, se perde. Perde-se o tempo que se gastou esperando. Perde-se a versão de si mesma que ainda tinha fé de que aquilo ia dar certo. Perde-se a fantasia que às vezes dói mais soltar do que a própria pessoa. Só que essas perdas não têm nome fácil, não cabem numa frase de efeito, e por isso ficam de fora da conta, ou seja, são perdas simbólicas de toda uma energia, uma vontade que foi posta em campo. A frase finge que a saída é de graça porque, se ela admitisse o preço, talvez ninguém tivesse coragem de pagar.

E talvez seja exatamente isso que ela precisa fazer: mentir um pouco, na medida certa, para dar impulso. Como uma frase que empurra pela porta antes que a pessoa pare para recalcular tudo de novo e acabe ficando mais um pouco, só para ver se dessa vez é diferente, tentando dar um novo final a uma velha história.

Não é preciso que a frase seja inteiramente verdadeira para que ela seja necessária. Às vezes a gente precisa de uma meia-verdade forte o suficiente para sustentar um passo e só depois, já do outro lado da porta, é que vai ter tempo de entender o que, de fato, ficou para trás.