OPINIÃO: CORES EMPRESTADAS

 

DISPONÍVEL PARA TODOS OS LEITORES: Nesta Coluna de Opinião, o historiador João Gabriel Silva resolve fazer uma referência ao cantor Nando Reis, em especial sobre uma música e as cores que ela aborda (Foto de Jakub Zerdzicki para Pexels)


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Por João Gabriel Silva


Recentemente, enquanto curtia um show do Nando Reis, fui surpreendido por um daqueles momentos que só a música pode proporcionar. Entre uma canção e outra, tocou "As Coisas Tão Mais Lindas", onde uma frase me cativou: "só reconheci suas cores belas quando eu te vi". Ali, cercado pela multidão, refleti sobre como muito do que sei sobre mim não surgiu de introspecção, mas do olhar do outro, alguém que, ao me enxergar, revelou tons que eu desconhecia possuir.

No entanto, esse olhar que me desvendou tantas nuances não permaneceu. O que começou como uma conexão acabou se transformando em afastamento, levantando a dúvida: aquelas cores ainda existem em mim, mesmo na ausência de quem as revelou?

Por um tempo, acreditei que não. Pensei que precisava de uma testemunha para minhas cores existirem, e sem aquele olhar revelador, eu voltaria ao estado anterior, sem cor, sem forma, aguardando alguém que novamente me ajudasse a descobrir quem sou. Enfrentar essa fase é um desafio inevitável e crucial: aprender a ser meu próprio reflexo de tons. Não tentando replicar o mesmo olhar, já que jamais será idêntico, mas porque uma vez que vemos essas cores, não podemos simplesmente desaprender a sua existência.

Muito se fala sobre amor próprio, mas talvez ele seja isso: não algo que emerge sozinho, mas a capacidade de sustentar-se pelas forças emprestadas de olhares passados. Escrevo este texto em homenagem àqueles que me devolveram cores desconhecidas. Cada pessoa que, mesmo inconscientemente, me ajudou a vislumbrar quem eu poderia ser. Nenhuma dessas cores brotou do nada; foram emprestadas por aqueles que se dispuseram a me ver com atenção e ainda hoje permanecem em mim, pendendo de quem as revelou ter seguido outros caminhos.

Se estou me tornando alguém mais pleno e consciente de si mesmo, é porque muitos olhares vieram antes, cada qual deixando sua marca colorida. Josué, William, Vanessa, George, Luana, Carlos, Dália, Débora, Amanda, Ray, Fah, Taty, Day, May, Laís e tantos outros, cada olhar a seu modo singular me transformou. Embora eu ainda não consiga nomear exatamente o que cada um trouxe, sei que juntas essas cores compõem grande parte de quem sou atualmente.

Se alguém um dia me perguntar onde aprendi a reconhecer essas tonalidades, direi que foi numa conversa de despedida com F., ao som de uma apresentação noturna onde descobri que só reconheci minhas cores ao encontrar as de outros. A diferença agora é que sei: foram muitas pessoas, infinitas cores e todas elas vivem de alguma forma dentro de mim.