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| DISPONÍVEL A TODOS OS LEITORES POR TEMPO LIMITADO: Nesta Coluna de Opinião, o jornalista e historiador João Gabriel Silva resolve trazer uma discussão mais profunda acerca do "monstro" que habita dentro de cada ser humano (Foto de Markus Spiske para Pexels) |
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Por João Gabriel Silva
Tem uma música chamada "Monster" que mistura Naruto, Kaneki (de Tokyo
Ghoul) e Ichigo (de Bleach) numa história só: ela está noYouTube, no canal
Player Tauz. E o que ela conta, no fundo, é bem simples: é a história de alguém
indo aos poucos, deixando de se reconhecer, se perdendo em um vazio cada vez maior.
Começa com Naruto, que sempre quis fazer o certo e sente que fracassou. Ainda
dói. Ele ainda se cobra, ainda sente culpa por ter virado alguém que não
reconhece. E isso é meio reconfortante, de um jeito estranho porque, enquanto
dói, ainda tem alguém ali lutando. Significa que algo em você ainda luta. Depois
vem Kaneki e aí a coisa muda de figura. Ele olha no espelho e não se reconhece
só que agora nem isso incomoda mais.
"Nenhum sentimento, nem
arrependimento", ele canta. Não é mais sobre sofrer com o que virou. É
sobre não sentir mais nada em relação a isso, é como se houvesse aceitação pelo
que houve e há certeza de que nada irá mudar.
E
isso assusta mais do que a culpa, porque quando a gente para de sentir algo que
deveria doer, é sinal de que alguma coisa quebrou de verdade.
E fecha com
Ichigo, que já nem finge mais que é errado: "o mal que me faz bem é o que
me deixa alucinado." Aqui o problema vira prazer. A pessoa já não luta
contra o monstro: ela gosta de ser ele. Isso vai além do que Freud chamou de
Princípio do Prazer, isto é, permanecer desse modo já dá um gozo ao sujeito.
No fundo, os três não são personagens diferentes. São a mesma pessoa em três
momentos: primeiro ainda briga com o que virou, depois para de sentir, e depois
passa a gostar. E o refrão, com aquelas "criaturas olhando pelas
janelas", parece ser a gente mesmo: olhando de fora, sem saber muito bem o
que fazer com o que vê.
A pergunta que a música repete, "como eu deveria
me sentir?", não é só um verso bonito. É a pergunta de quem já perdeu a
bússola.
E talvez o motivo de "Monster" grudar tanto seja esse: todo
mundo, em algum momento, já se perguntou isso também.
