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| Obesidade, estresse, sedentarismo e diabetes estão entre os principais fatores por trás da queda precoce do hormônio antes dos 40 anos |
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Por Léo
Marques, da Agência Einstein
Cansaço constante, queda da libido e irritação
sem motivo claro. Para muitos homens, esses sinais entram na conta do estresse,
da rotina puxada ou da falta de sono. Mas, em alguns casos, podem indicar algo
menos óbvio: níveis baixos de testosterona, mesmo antes da idade em que isso
começa a acontecer naturalmente.
Associada ao envelhecimento, a redução desse
hormônio, produzido majoritariamente pelos testículos, costuma ser modesta e
gradual (cerca de 1,2% ao ano) a partir dos 40 anos. No entanto, uma queda
precoce precisa de investigação, podendo ter origem orgânica ou funcional. Isso
significa desde alterações congênitas (de nascimento) e presença de tumores até
fatores metabólicos, como a obesidade – hoje no topo da lista de causas
funcionais no sexo masculino.
“O tecido adiposo aumenta a conversão da
testosterona em estradiol [outro hormônio, predominante no organismo
feminino], o que causa uma disfunção no estímulo dos testículos para a
produção de testosterona”, explica a endocrinologista Ana Luiza Rio, do
Einstein Hospital Israelita em Goiânia. O mesmo raciocínio vale para o diabetes
tipo 2, especialmente quando mal controlado. Segundo artigo publicado em 2024 pela Sociedade Brasileira de Diabetes, de 25% a 40%
dos homens com a doença têm hipogonadismo (disfunção na produção de
testosterona), chegando a 50% quando a obesidade é associada.
Estresse crônico, sedentarismo, distúrbios do
sono e uso prévio de anabolizantes também podem contribuir para níveis
reduzidos do hormônio. Aliás, esse último fator tem ganhado destaque. “Temos
visto casos frequentes de hipogonadismo após abuso e uso crônico de esteroides com
a finalidade anabolizante para fins estéticos e ganho de massa muscular”,
afirma Rio. Ou seja, nem sempre se trata de um problema hormonal primário, mas
sim de uma alteração funcional.
“Em muitos jovens, a testosterona baixa é mais
um reflexo do estilo de vida do que um problema hormonal definitivo. Esse
cenário nos traz a possibilidade real de reversão e até de resolução completa
do problema”, pontua o urologista Gustavo Marquesine Paul, coordenador do
departamento de Andrologia, Reprodução e Sexualidade da Sociedade Brasileira de
Urologia (SBU).
Sintomas que confundem
Parte do desafio está justamente nos sinais.
Alguns deles são comuns e inespecíficos, como cansaço, insônia, irritabilidade,
dificuldade de concentração e alterações de humor. Por isso, o contexto faz
toda a diferença. “No hipogonadismo, os sintomas tendem a ser mais persistentes
e com forte componente físico e sexual”, explica Paul.
Entre os sinais mais específicos em homens
adultos estão a queda da libido, piora da qualidade das ereções (especialmente
ausência das matinais), ejaculação retardada, diminuição do volume ejaculado e
infertilidade, além de perda de massa muscular, aumento de gordura abdominal,
redução de pelos corporais (faciais, axilares e pubianos) e surgimento de mamas
(ginecomastia). “Não é esperado que um homem jovem apresente queda sustentada
do desejo sexual ou piora progressiva da função erétil sem uma causa clara”,
alerta o médico da SBU.
Como muitos sintomas se sobrepõem ao estresse
e à ansiedade, o diagnóstico exige cuidado, das queixas clínicas aos exames
laboratoriais. “A dosagem de testosterona total é o exame inicial, mas níveis
baixos devem ser confirmados com uma segunda coleta após um intervalo de quatro
semanas”, aponta a endocrinologista. E há um detalhe importante: o exame deve
ser feito entre 7h e 10h da manhã, quando os níveis hormonais estão mais altos.
Se a deficiência for confirmada, a
investigação costuma partir para a causa. Hormônios como LH e FSH ajudam a
entender se o problema vem dos testículos ou do cérebro, mais especificamente
do hipotálamo ou da glândula hipófise. Também podem ser avaliados tireoide,
prolactina, perfil de ferro, proteína de ligação dos hormônios sexuais (SHBG),
causas genéticas, bem como exames de imagem da hipófise e bolsa escrotal, a
depender das dosagens hormonais. Fatores metabólicos, como colesterol e
glicemia, também são investigados.
Reposição não é atalho
Diante dos sintomas, muita gente busca uma
solução rápida na reposição de testosterona, mas esse caminho exige cautela. O
uso indiscriminado pode trazer consequências sérias. Entre elas estão a
infertilidade, a atrofia testicular e o aumento do risco de trombose, infarto,
acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca, além de alterações
no colesterol e mudanças de humor e comportamento. “O uso inadequado pode
interromper completamente a produção de espermatozoides, de forma temporária ou
até permanente”, alerta o urologista. Há ainda risco de dependência física e
psicológica.
A reposição é indicada quando há sintomas
compatíveis e níveis baixos confirmados em exames, sempre com acompanhamento
médico e levando em consideração contraindicações. Ela pode ser feita por meio
de gel, injeções e, com menor frequência, cápsulas.
Ainda assim, essa nem sempre é a primeira
opção de tratamento. Em homens jovens, mudanças no estilo de vida podem trazer
resultados consistentes. Perda de peso, atividade física regular (especialmente
treino de força), sono de qualidade, redução do consumo de álcool e controle do
estresse têm impacto direto nos níveis hormonais. “O exercício físico pode
aumentar os níveis de testosterona, melhorar a composição corporal, a
sensibilidade à insulina e o bem-estar geral”, destaca Ana Luiza Rio.
Além disso, quando há desejo de fertilidade, a
reposição direta também é evitada. Nesse caso, a opção é por estratégias que
preservem a produção de espermatozoides, como a adoção de hábitos saudáveis e,
quando necessário, o uso de medicações como citrato de clomifeno, anastrozol e
hCG, de forma individualizada.
A testosterona baixa antes dos 40 não é comum,
mas também não é rara. Na maioria das vezes, não é um destino inevitável, mas
sim um sinal de que algo precisa de ajuste. A boa notícia é que, na maior parte
dos casos, tem solução.
E nas mulheres?
Embora o tema seja mais discutido entre
homens, mulheres também produzem testosterona, mas em quantidades
bem menores. Para elas, porém, a chamada “deficiência” não é bem definida.
“Não há um valor de corte estabelecido para mulheres”, frisa a médica do
Einstein em Goiânia.
Por isso, a dosagem não é feita de rotina. A
principal utilização da medição dos níveis de testosterona neste caso é para o
diagnóstico de síndromes hiperandrogênicas, ou seja, em que há excesso de
produção de testosterona, como a síndrome dos ovários policísticos, a
hiperplasia adrenal congênita e tumores adrenais e ovarianos produtores de
hormônios com ação masculinizante.
Já o uso de testosterona para esse público é
restrito a situações específicas, como o transtorno do desejo sexual hipoativo
após a menopausa, e sempre com avaliação criteriosa. No Brasil, inclusive, não
há formulações aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
para esse fim.
O uso indevido para estética ou performance é
arriscado e não tem respaldo científico, podendo causar efeitos colaterais como
acne, excesso de pelos no rosto e corpo, queda de cabelo, engrossamento da voz
e aumento do clitóris, além de alterações nos níveis de colesterol, problemas
hepáticos e risco cardiovascular aumentado.
Fonte: Agência Einstein
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