![]() |
| Deitar-se de lado ou ajustar o travesseiro pode ajudar em casos de refluxo, apneia e dores no corpo, mas não existe uma postura ideal para todos |
![]() |
| © Einstein Hospital Israelita. Todos os direitos reservados. Publicado neste site com autorização |
Por Marília Marasciulo, da Agência Einstein
Embora não exista uma posição ideal para
dormir, algumas podem ser piores que outras, sobretudo em quem tem apneia
obstrutiva do sono, refluxo, dor cervical ou lombar, por exemplo. Ajustes como
deitar-se sobre o lado esquerdo e adequar a altura do travesseiro podem ajudar
em alguns casos. Em outros, tentar controlar demais a posição pode virar mais
uma fonte de preocupação.
Nas redes sociais, porém, a discussão ganhou
contornos mais amplos, especialmente com conteúdos que associam determinadas
posições de dormir à melhora da circulação “linfática”. O problema é que muitas
dessas publicações confundem o sistema linfático, responsável pela drenagem de
fluidos e pela resposta imune, com o sistema glinfático, mecanismo descrito no
cérebro e relacionado à remoção de resíduos metabólicos.
Um dos estudos mais citados nessa discussão
foi publicado em 2015 no Journal of Neuroscience. Feito em roedores anestesiados, o trabalho
comparou o transporte glinfático cerebral em diferentes posições corporais e
observou maior eficiência em posição lateral. O achado sugere uma possível
relação entre postura e funcionamento do sistema glinfático, mas não avaliou
pessoas dormindo nem a circulação linfática periférica do corpo humano.
Portanto, não muda o que se orienta à
população geral. “Não existe uma posição universalmente correta. Depende da
condição de cada paciente, do conforto e de como a pessoa se sente dormindo”,
diz a neurologista Maíra Honorato, especialista em medicina do sono do Einstein
Hospital Israelita.
Respiração, refluxo e gravidez
Um dos principais exemplos da influência da
posição de dormir é a apneia obstrutiva do sono, condição marcada por
interrupções ou reduções repetidas da respiração durante a noite. Em algumas
pessoas, os episódios pioram quando elas dormem de barriga para cima. “Essa
posição favorece o colabamento, o fechamento das vias aéreas e as pausas
respiratórias durante o sono”, explica Honorato.
Nessa posição, a língua tende a cair para
trás, o que pode estreitar a passagem de ar e piorar tanto o ronco quanto os
episódios de apneia. Por isso, em alguns casos, a avaliação médica pode
identificar a chamada apneia posicional, quando os eventos respiratórios são
mais frequentes ou intensos quando a pessoa dorme de barriga para cima.
Um estudo publicado em 2016 na Sleep and Biological Rhythms observou associação semelhante. A pesquisa
analisou adultos sem diagnóstico aparente de apneia obstrutiva do sono e
comparou parâmetros do sono em diferentes posições. A posição de barriga para
cima foi associada a piores indicadores, como maior índice de distúrbios
respiratórios e menor saturação mínima de oxigênio.
Dormir em determinadas posições também pode
interferir nos sintomas do refluxo gastroesofágico. A condição ocorre quando
parte do conteúdo do estômago retorna para o esôfago, provocando azia,
queimação, regurgitação e desconforto. Quando a pessoa se deita, os sintomas
podem se tornar mais incômodos porque o corpo deixa de contar com o efeito da
posição vertical para dificultar essa subida.
Uma das orientações nesses casos é elevar os
pés da cama do lado onde a cabeça fica apoiada ou levantar o travesseiro. A
inclinação ajuda a manter a parte superior do corpo mais alta, o que dificulta
o retorno do conteúdo do estômago para o esôfago durante a noite. Dormir do
lado esquerdo também pode ajudar: pela anatomia do estômago e do esôfago, essa
posição tende a dificultar o retorno do conteúdo gástrico. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2023, que analisou estudos sobre
posição de dormir e doença do refluxo gastroesofágico, apontou o lado esquerdo
como a posição associada a menor exposição do esôfago ao ácido.
A recomendação de dormir de lado,
especialmente sobre o esquerdo, também aparece para gestantes, sobretudo nos
últimos meses. Nessa fase, o aumento do útero pode comprimir vasos importantes
e interferir na circulação materna e fetal. “Nessa posição há menor compressão
da veia cava pelo útero, o que favorece a circulação sanguínea adequada”,
explica a neurologista. “Mas o mais importante é evitar uma visão muito rígida.
A gestante deve dormir do jeito que conseguir, na posição que encontrar mais
confortável.”
Dor ao acordar não depende só da postura
A posição ao dormir também pode ser
considerada quando há dor cervical, lombar, nos ombros ou em outras
articulações. Nesses casos, a postura pode aliviar ou piorar o desconforto,
dependendo da condição de cada pessoa. “Um dos decúbitos [termo técnico para
posição deitada] que devem ser evitados é o ventral, de barriga para baixo,
porque esse realmente força a cervical e aumenta a chance de problemas
cervicais”, alerta a pneumologista Luciana Palombini, pesquisadora do Instituto
do Sono, em São Paulo.
A posição ao dormir pode contribuir para dores
no pescoço, na lombar e nos ombros porque altera a distribuição de carga sobre
articulações, coluna e músculos durante várias horas. Ainda assim, essa relação
nem sempre é direta: acordar com dor não significa, necessariamente, que a
postura durante a noite foi a única causa do desconforto. "Estresse,
atividade física, sedentarismo, questões emocionais, tudo isso tem muito mais
peso pra uma pessoa sentir o desconforto enquanto está dormindo do que a postura
em si", observa o fisioterapeuta Ítalo Lemes, pesquisador e professor da
graduação de Fisioterapia do Ensino Einstein.
Alguns ajustes podem ajudar conforme a queixa.
Pessoas com dor nas costas, por exemplo, podem se beneficiar de um suporte sob
os joelhos quando dormem de barriga para cima. Já quem se deita de lado pode
usar um travesseiro entre as pernas para favorecer o alinhamento.
No caso de queixas cervicais, o principal
objetivo do travesseiro é manter o pescoço em uma posição próxima da neutra,
sem inclinação excessiva para cima, para baixo ou para os lados. Quem dorme de
lado costuma precisar de um travesseiro um pouco mais alto, capaz de preencher
o espaço entre o ombro e a cabeça. Já quem se posiciona de barriga para cima
tende a se adaptar melhor a travesseiros de altura intermediária.
No caso do colchão, mais do que uma tecnologia
específica, o que importa é o conforto, a adaptação individual e a sensação de
recuperação ao acordar. Colchões de firmeza intermediária costumam ser bem
tolerados, em especial por pessoas com queixas lombares, mas não há um modelo
ideal para todos. Sinais como rigidez ao acordar que melhora com o
movimento, sensação de pressão em um lado do corpo, formigamento, dormência ou
despertares frequentes para trocar de posição podem indicar que a postura
durante a noite está contribuindo para o desconforto.
Fonte: Agência Einstein
.jpg)
.jpg)