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| DISPONÍVEL A TODOS OS LEITORES: Na Coluna de Opinião deste sábado, o historiador e jornalista João Gabriel Silva traz a vocês uma interessante dica literária para a semana. Afinal, nada como um bom livro para preencher o vazio da mente humana (Foto de João Jesus para Pexels) |
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Por João Gabriel Silva
Terminei 'A Paciente Silenciosa' com aquela sensação estranha de quem releu o livro inteiro em cinco segundos porque foi exatamente isso que o final me fez fazer: voltar, mentalmente, a cada capítulo, procurando as pistas que eu tinha lido sem ver.
Isso foi uma grata surpresa já que não fazia parte do meu gosto literário esse tipo de livro mais contemporâneo, topei o desafio por conta que foi o livro escolhido para abrir o clube do livro que estou participando, e já adianto, foi instigante do inicio ao fim a leitura.
Então, vamos entender melhor como esse livro pode nos prender com a sua história (sem spoilers, talvez. Kkk). A Paciente Silenciosa', de Alex Michaelides, conta a história de Alicia Berenson, uma pintora que, um dia, atira no marido e nunca mais volta a falar, nem uma palavra, nem em julgamento, nem em terapia. (Detalhe, para quem gosta de psicanálise, há várias referências no texto). Anos depois, o psicoterapeuta Theo Faber se torna obcecado pelo caso e consegue uma vaga na instituição onde ela está internada, decidido a ser quem finalmente vai fazê-la falar. O romance se constrói inteiro em torno desse silêncio: o que ele esconde, o que ele provoca em quem tenta decifrá-lo, e até onde vai a obsessão de alguém que se convence de que só ele pode desvendar o mistério.
O silêncio de Alicia é o verdadeiro personagem do livro, nele se encontra o fio condutor de todo o mistério, mas esse silêncio também traz o peso de que todos querem preenche-lo de alguma forma, o terapeuta interpreta, os jornalistas especular e o leitor deduz.
Curiosamente, ninguém consegue deixar o silêncio apenas ser silêncio, e isso diz muito até mesmo sobre nós que sempre tentamos dar palavras ao silêncio do outro, há algo nele que nos incomoda, nos frusta, nos coloca em uma posição em que supomos várias coisas para não deixar em aberto.
O silêncio não nos dá nada para trabalhar a não ser uma interrogação, mas mesmo assim ele exige de nós uma resposta. Preferimos qualquer explicação, mesmo errada, a admitir que não sabemos o significado dessa atitude. Para muitos é mais fácil inventar um motivo para o silêncio do outro do que conviver com a possibilidade de que ele não tenha explicação nenhuma, ou pior, que seja uma livre escolha do outro.
A tentativa de preencher o silêncio do outro talvez diga mais sobre aquele que tenta a todo custo achar uma razão para tal atitude do que sobre quem cala, pois isso nos lembra da nossa incapacidade de controlar tudo.
É essa a lógica que Michaelides usa para criar a sua história: o livro inteiro é construído sobre a nossa incapacidade de deixa o silêncio de Alicia em paz. Cada personagem tenta preenchê-lo de alguma forma, criar teorias, e nós que o lemos inconscientemente fazemos o mesmo, vamos criando hipóteses, desconfiando de uns, tirando a culpa de outros, tudo isso baseado em pistas que em um primeiro momento parecem bastante sólidas até o momento em que elas caem por terra.
E no fim, quando a reviravolta tem o seu desfecho, ela não munda apenas os fatos da narrativa: ela expõe o quanto de nós mesmos colocamos nas lacunas que o silêncio de Alicia deixou abertas.
No fim, 'A Paciente Silenciosa' não é só um mistério sobre o que aconteceu com Alicia, funciona como um espelho de como lidamos com tudo que se recusa a nos dar respostas prontas. E talvez a pergunta que fique não seja 'por que ela calou', mas 'por que isso nos incomoda tanto'.
Para mim, o verdadeiro mistério do livro não está no que Alicia escondeu, mas sim, em o quanto nós, leitores, não suportamos esperar para saber.
