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| Na primeira Coluna de Opinião publicada por este site em 2026, um tema silencioso, porém incômodo nas relações humanas, será abordado e fará certo barulho (Foto de Alessandro Manzoli para Pexels) |
AVISO AOS LEITORES: ao contrário de nossas reportagens, a Coluna de Opinião traz, como o próprio nome já diz, a opinião de quem a escreve sobre fatos concretizados, não representando necessariamente um posicionamento oficial do Podcast Cafezinho com William Lourenço, enquanto veículo de imprensa (emitido somente por meio de nossos Comunicados Oficiais e Editoriais).
Por João Gabriel Silva
Parafraseando a música Love Bites do Def Leppard: o silêncio morde, o silêncio
dói, o silêncio machuca...
O silêncio não é a mera ausência de palavras; é uma
presença opressiva que muitas vezes se arma contra o outro. Em contextos
familiares, os pais recorrem ao "tratamento de silêncio" para
disciplinar os filhos, impondo uma retirada afetiva que evoca sentimentos de
isolamento e abandono. Na intimidação conjugal, especialmente no amor líquido
hipermoderno, marcado por relações fluidas, narcisismo e imediatismo digital, os
parceiros o utilizam como atração sutil, um “ghosting” emocional que testa
limites e reforça o controle.
Esse padrão remete à dinâmica sádica descrita por Sigmund Freud em O Mal-Estar na Civilização (1930), onde a agressividade passiva se
manifesta na negação do outro. Ao calar, o agente do silêncio exerce poder, mas
sem confronto direto, preservando sua imagem de "vítima" ou
"paciente". O impacto em quem recebe o silêncio é devastador. Gera
mais dúvidas que certezas. Muitas perguntas surgem: "O que fiz de errado? Será
que sou indigno?" Essa ambiguidade ativa defesas primitivas, como a
ansiedade de separação descrita por Bowlby na sua teoria do apego, ou revive
traumas de negligência infantil.
Na psicanálise com crianças, observamos isso em
brincadeiras onde o silêncio dos pais é "encenado" com bonecos
abandonados, revelando feridas narcísicas profundas. Pensar o silêncio não é
novidade, a filosofia já mencionava o seu impacto, Heidegger nos alerta em Ser e
Tempo (1927) que o silêncio autêntico é reflexivo, mas o manipulador é
inautêntico, que aliena o Dasein do outro.
Assim, quebrar o ciclo exige coragem:
nomear o silêncio para curá-lo. Em suma, o silêncio morde porque fere o cerne da
relação humana, a intersubjetividade. Promovê-lo como ferramenta de crescimento,
e não de proteção, é um imperativo ético e terapêutico para todos.
