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| Conteúdo sexualmente explícito é associado a disfunção erétil, baixa libido, depressão e ansiedade, com riscos a curto e longo prazo |
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Por Lucas
Rocha, da Agência Einstein
A
curiosidade pelo universo erótico acompanha a humanidade há séculos: de
representações pré-históricas do corpo, passando por imagens sexuais em objetos
de uso cotidiano nas civilizações antigas, até a emergência da pornografia como
é produzida hoje, principalmente na forma de vídeos explícitos. O avanço
tecnológico observado nos últimos 20 anos ampliou consideravelmente o acesso a
esse tipo de conteúdo — assim como seus impactos na saúde.
Embora
faltem estimativas robustas a níveis global e nacional, especialistas estimam
que haja um aumento no consumo e que o contato com esse tipo de conteúdo
acontece em idades cada vez mais jovens. O livro Handbook of Children and Screens (“Manual de Crianças e Telas”, em tradução
livre, sem edição em português) destaca, a partir da literatura científica
recente, que a maioria dos adolescentes já viu pornografia, e que mais da
metade relata o primeiro contato antes dos 14 anos, intencionalmente ou não.
Um
estudo realizado nos Estados Unidos com a
participação de mais de 1,3 mil jovens de 13 a 17 anos apresentou dados ainda
mais alarmantes: 15% disseram ter visto pornografia online pela primeira vez
aos 10 anos ou menos. A idade média do primeiro contato, segundo a pesquisa,
foi aos 12 anos. Além disso, 44% buscaram pelo conteúdo, enquanto 58% foram
expostos acidentalmente.
No
Brasil, um trabalho publicado em 2023 na Revista Brasileira de
Sexualidade Humana aponta
que o primeiro contato com pornografia ocorreu, em média, aos 13 anos entre os
homens e por volta dos 15 anos entre as mulheres. Apesar de ter envolvido
apenas 153 pessoas, ajuda a compor o cenário sobre essa realidade no país,
assim como outros levantamentos. Em 2025, 8% dos usuários de internet de 9 a 17
anos relataram ter visto, com ou sem intenção, imagens ou vídeos de conteúdo
sexual online nos 12 meses anteriores, segundo a TIC Kids Online Brasil, pesquisa do Cetic.br/NIC.br sobre o uso da
internet por crianças e adolescentes. Foram entrevistadas 2.300 jovens dessa
faixa etária, assim como seus pais ou responsáveis, em todo o país.
Entre
médicos, já se sabe que a pornografia
afeta o desenvolvimento emocional, sobretudo na fase da adolescência. “O uso
frequente como estratégia de alívio de tensão pode reduzir a capacidade de
lidar com frustrações e emoções negativas de forma adaptativa e saudável para o
adolescente”, alerta o psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, gerente médico do Espaço
Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita. “Além
disso, pode distorcer expectativas sobre corpo, desempenho, gerando ansiedade de performance na relação sexual e afastando o
jovem de uma vivência sexual mais integrada e realista.”
De
acordo com o especialista, quanto mais cedo e mais intensamente a pornografia
entra na vida de um adolescente que ainda não viveu experiências reais ou
manteve conversas educativas e vínculos afetivos, maior o risco de ela virar
referência primária de sexualidade e, com isso, causar prejuízos.
Impactos
na saúde mental
A
perspectiva psicológica e social do fenômeno acende outro alerta: a pornografia
pode alterar a forma como adolescentes entendem consentimento, intimidade e
reciprocidade. “O indivíduo pode perder a dimensão de limites do próprio corpo
e do outro e, com isso, desenvolver episódios de mais impulsividade ou
irritabilidade frente a qualquer tipo de frustração”, explica o psicólogo
Maycon Torres, professor de psicologia clínica e saúde mental e
vice-coordenador do programa de pós-Graduação em Psicologia da Universidade
Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro.
As
nuances desse comportamento são observadas em diferentes estudos. Um artigo
publicado no periódico L'Encéphale revela associações entre o consumo desse tipo
de conteúdo e atitudes sexuais mais permissivas, comportamentos sexuais de
risco, agressão sexual e experiências de abuso sexual digital. A relação entre
a pornografia e a conduta de assédio sexual também foi observada em um amplo estudo divulgado em 2022 no Journal of Research
on Adolescence.
Isso
pode ser associado, em parte, à tendência de produções com teor cada vez mais
extremo, na busca por engajamento e lucro. Nessa seara, encontram-se vídeos com
conotação violenta e degradante, que exaltam a dor, simulam o não
consentimento, trazem encenação de incesto, além da exploração de corpos com
aparência muito jovem, ainda que atores e atrizes sejam maiores de idade.
A
exposição abusiva ao conteúdo sexual explícito pode levar a um problema chamado
de tolerância. É semelhante ao contexto observado na utilização de alguns tipos
de substâncias ilícitas: com o tempo, o corpo vai precisando de doses cada vez
mais altas para desencadear o mesmo efeito inicial. No caso da pornografia, a
pessoa vai perdendo a sensibilidade a filmes “comuns” e recorre aos conteúdos
mais intensos. Isso é observado em diversas pesquisas, incluindo um estudo qualitativo publicado na Scientific
Reports em 2024.
Como
consequência do uso problemático, podem surgir eventos adversos como ansiedade,
depressão, culpa, vergonha e isolamento social. “Observamos uma associação com
ansiedade e sintomas depressivos, muitas vezes relacionados ao ciclo de uso e
frustração. Culpa e vergonha podem aparecer principalmente em contextos
culturais ou familiares mais restritivos”, relata Zoldan. “O isolamento é
evidenciado na substituição de interações reais, como compromissos e
atividades, devido à necessidade de consumo compulsivo da pornografia.”
Além
da adolescência
O
contato precoce e intenso com a pornografia antes de experiências reais tende a
colocá-la como referência de sexualidade. “A adolescência é o momento em que
essas vivências começam a produzir marcas que condicionam a sexualidade adulta.
Pessoas com um padrão de consumo excessivo, principalmente ao nível de provocar
alterações da autoestima e do autocontrole, tendem a relatar mais dificuldades
em obter satisfação sexual e apresentam mais problemas de relacionamento”,
destaca Torres.
Os
impactos sobre a vida sexual e afetiva se estendem e podem ser sentidos ao
longo da idade adulta. São identificadas dificuldades para a formação de
intimidade e vínculo, compreensão do sexo como performance, desafio para lidar
com constrangimentos e falhas, vergonha de imperfeições corporais naturais e
distorções no entendimento de limite e consentimento.
Embora
nem todo indivíduo exposto a materiais explícitos na juventude apresente o
mesmo padrão de comportamento ou entraves posteriormente, a literatura sugere
haver um risco aumentado. A observação clínica também aponta como consequências
de longo prazo quadros de disfunção erétil, ejaculação precoce, falta de
prazer, baixa libido com parcerias reais, dependência associada a sintomas como
fissura e comprometimento da vida social.
Reconhecimento
do problema
O
uso problemático de pornografia não se encaixa em uma categoria própria no
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), elaborado pela
Associação Americana de Psiquiatria, nos Estados Unidos. A Classificação
Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde (OMS),
reconhece o transtorno do comportamento sexual compulsivo, que pode incluir o
uso excessivo de conteúdo pornográfico.
“O
diagnóstico considera diversas questões, incluindo se a pessoa apresenta um
sofrimento muito significativo com a prática ou prejuízos, que podem ser de
ordem sexual, de saúde mental e nos relacionamentos”, resume o psiquiatra e
pesquisador Thiago Roza, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A
prevenção pode ser feita a partir de eixos que compreendem família, escola e
atenção em saúde mental. Contudo, por se tratar de um tema considerado tabu,
persistem dificuldades na implementação do cuidado. Antes de mais nada, é
preciso reconhecer sinais de alerta. “Perda de controle associada ou não a
tentativas frustradas de reduzir ou interromper o comportamento. Aumento
progressivo do tempo de uso e em contextos inadequados, como escola, trabalho
ou na sala de estar de casa. Além de prejuízo em outras áreas da vida:
acadêmica, social ou familiar”, elenca o psiquiatra do Einstein.
A
proibição, sozinha, pode não surtir grandes efeitos. O caminho mais consistente
pode estar em uma abordagem combinada. “Envolve educação sexual baseada em
evidências, incluindo discussões sobre consentimento, afetividade e realidade
em relação a fantasia”, explica Luiz Gustavo Zoldan. Além disso, inclui manter
um diálogo aberto que reduza estigma e favoreça a orientação segura. “E um
letramento digital para compreensão crítica do conteúdo consumido”, orienta.
Nesse
contexto, podem ser mais eficazes estratégias como o monitoramento da atividade
digital por pais e responsáveis, a promoção de habilidades socioemocionais em
casa e na escola, e a educação sexual baseada em evidências e pautada na
discussão crítica sobre encontros sexuais, consentimento, gênero e falta de
realismo da pornografia.

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